O lucro dos bancos privados listados na B3 perdeu força no primeiro trimestre de 2026 e interrompeu uma sequência de oito trimestres consecutivos de crescimento. Mesmo com rentabilidade ainda elevada, os resultados passaram a mostrar concentração maior entre as instituições mais eficientes.
Itaú Unibanco e BTG Pactual ampliaram domínio sobre os ganhos do sistema financeiro brasileiro enquanto rivais enfrentaram mais pressão sobre crédito, inadimplência e margem financeira. Juntos, os dois bancos responderam por 65,3% do lucro consolidado entre os maiores privados do país.
A mudança expõe uma nova dinâmica no setor bancário. O crescimento deixou de ser distribuído entre os grandes bancos e passou a favorecer instituições com receitas mais diversificadas, maior eficiência operacional e menor dependência do crédito tradicional.
Itaú e BTG concentram avanço da rentabilidade bancária
Levantamento da Elos Ayta mostra que Itaú Unibanco, Bradesco, BTG Pactual e Santander Brasil registraram lucro conjunto de R$ 25,263 bilhões entre janeiro e março de 2026.
O valor representa queda de 5,83% frente aos R$ 26,828 bilhões registrados no quarto trimestre de 2025. Foi a primeira retração trimestral desde o quarto trimestre de 2023.
O recuo consolidado, porém, esconde diferenças relevantes dentro do próprio setor.
- Itaú Unibanco: R$ 11,938 bilhões
- BTG Pactual: R$ 4,57 bilhões
- Crescimento trimestral do BTG: 4,08%
- Participação conjunta no lucro: 65,3%
O Itaú repetiu o maior lucro trimestral já registrado por um banco listado na B3. O BTG foi o único entre os grandes privados a ampliar ganhos no trimestre.
O movimento mostra que a escala sozinha já não garante expansão de rentabilidade. Bancos mais expostos ao crédito massificado e ao aumento da inadimplência passaram a enfrentar maior dificuldade para sustentar o crescimento dos resultados.
Lucro dos bancos entra em nova fase de disputa por eficiência
A desaceleração do lucro dos bancos ocorreu mesmo com juros elevados no Brasil, cenário historicamente favorável às margens financeiras do setor.
O resultado indica uma mudança relevante no mercado financeiro. O foco deixou de ser apenas crescimento da carteira de crédito e passou a incluir eficiência operacional, retorno ao acionista e capacidade de gerar receitas fora do crédito tradicional.
No BTG, a expansão dos ganhos foi sustentada principalmente por áreas como:
- investment banking
- gestão de recursos
- wealth management
- mercado de capitais
O Itaú manteve vantagem apoiado em escala digital, controle de custos e maior monetização da base de clientes de alta renda.
Enquanto isso, bancos mais dependentes do varejo tradicional enfrentaram desaceleração maior das receitas e aumento da pressão sobre provisões e qualidade da carteira.
Segundo Einar Rivero, CEO da Elos Ayta, o sistema bancário brasileiro continua altamente lucrativo, mas os resultados passaram a ficar mais concentrados em instituições com modelos de negócios diversificados e maior eficiência.
A mudança também altera a dinâmica competitiva do setor. Bancos capazes de preservar ROE elevado e controlar risco de crédito passaram a ampliar vantagem justamente num ambiente de crédito mais seletivo.
Banco do Brasil amplia recuo do setor financeiro
A desaceleração ficou ainda mais forte quando o Banco do Brasil entrou no levantamento.
Considerando Itaú, Bradesco, BTG, Santander e Banco do Brasil, o lucro consolidado caiu para R$ 28,353 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
O valor ficou 10,8% abaixo dos R$ 31,8 bilhões registrados no trimestre imediatamente anterior.
O Banco do Brasil lucrou R$ 3 bilhões entre janeiro e março, queda de:
- 37,9% frente ao trimestre anterior
- 54,4% na comparação anual
O resultado ampliou a percepção de pressão sobre crédito, inadimplência e rentabilidade dentro do sistema financeiro brasileiro.
A deterioração da carteira ligada ao agronegócio virou um dos principais focos de atenção do mercado após o avanço das recuperações judiciais no setor rural e o aumento do risco de crédito no agro.
O cenário ajuda a explicar por que Itaú e BTG ampliaram participação relativa nos ganhos do sistema financeiro brasileiro justamente num período de desaceleração do setor.
O primeiro trimestre de 2026 mostrou que os bancos brasileiros continuam altamente lucrativos, como o Itaú e o BTG Pactual, mas menos equilibrados. O crescimento passou a se concentrar em instituições capazes de combinar escala, eficiência operacional e receitas diversificadas, enquanto bancos mais dependentes do crédito tradicional perderam ritmo.



