Mais de 6 mil voos foram retirados da programação das companhias aéreas entre maio e junho após a alta do preço do querosene de aviação. O combustível, que representa uma das maiores despesas do setor, praticamente dobrou de valor em menos de três meses e obrigou empresas a reduzir operações em diversas regiões do país.
O impacto já aparece em duas frentes. Enquanto passageiros enfrentam menos opções de voos, as tarifas seguem pressionadas pelo aumento dos custos operacionais. Estados como Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo estão entre os mais afetados pelos cortes registrados na malha aérea nacional.
A redução da oferta ocorre em um momento de forte instabilidade no mercado internacional de energia. A escalada das tensões no Oriente Médio elevou os preços do petróleo e ampliou a pressão sobre um setor que já convive com margens apertadas e alta dependência dos custos de combustível.
Alta do querosene de aviação provocou cortes de voos em todo país
Levantamento da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostra que pelo menos 6.271 voos deixaram a programação das companhias entre maio e junho. Ao todo, foram 3.596 operações retiradas em maio e outras 2.675 previstas para junho.
O corte atingiu praticamente toda a malha aérea nacional. Entre os estados com maiores reduções proporcionais estão:
- Pernambuco;
- Bahia;
- Goiás;
- Espírito Santo;
- Rio de Janeiro.
Em números absolutos, as maiores perdas ocorreram em:
- São Paulo: 844 voos a menos;
- Rio de Janeiro: 514;
- Pernambuco: 427;
- Bahia: 362;
- Distrito Federal.
O movimento reflete o peso do combustível dentro da estrutura de custos do setor. O querosene de aviação pode representar até 45% das despesas operacionais, tornando algumas rotas inviáveis quando ocorrem aumentos bruscos de preço.
Nesse cenário, as empresas costumam preservar mercados mais rentáveis e reduzir frequências em operações com menor retorno financeiro.
Passagens aéreas ficaram mais caras com redução da oferta
A redução da malha aérea ocorreu em paralelo a uma disparada histórica do custo do combustível utilizado pelas companhias. Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que o litro do querosene de aviação saltou de R$ 3,35 em fevereiro para R$ 6,65 no início de maio, acumulando alta de 98,4% em menos de três meses.
O choque rapidamente saiu dos balanços das empresas e chegou ao mercado. Com custos operacionais pressionados e menos voos disponíveis, as companhias passaram a operar em um ambiente de menor oferta de assentos. Nesse cenário, o repasse de parte das despesas para as tarifas se tornou praticamente inevitável.
Os efeitos já aparecem nos números da Anac. Em março, o preço médio das passagens aéreas subiu 17,8% em relação ao mesmo período do ano anterior e avançou 14,5% na comparação com fevereiro.
A combinação entre combustível mais caro e redução da oferta, portanto, ajuda a explicar por que viajar de avião voltou a pesar mais no orçamento. Isso, justamente no momento em que encontrar voos disponíveis se tornou mais difícil.
Gol e Azul concentraram a maior parte da redução da malha aérea
Entre as companhias afetadas pela alta do querosene de aviação, a Gol foi a empresa que mais retirou operações da programação.
A companhia eliminou:
- 1.840 voos em maio;
- 1.201 voos em junho.
O total alcançou 3.041 operações.
Enquanto isso, a Azul registrou:
- 1.243 voos retirados em maio;
- 973 em junho.
Ao todo, foram 2.216 voos cortados.
Já a Latam apresentou uma redução menor, com:
- 498 voos retirados em maio;
- 537 em junho.
Gol e Azul responderam por mais de 86% de toda a redução observada no período.
Estados mais dependentes da aviação sentiram impacto maior
Os cortes não representam apenas uma redução operacional das companhias.
Em estados onde o transporte aéreo exerce papel importante para o turismo, os negócios e a integração regional, a perda de frequências afeta diretamente a circulação de pessoas e atividades econômicas.
Pernambuco e Bahia aparecem entre os casos mais emblemáticos.
Além da redução de voos, a menor oferta pode limitar opções de horários, reduzir a concorrência em determinadas rotas e aumentar o custo médio das viagens.
Por isso, o impacto da crise não se restringe às empresas aéreas. Ele alcança setores que dependem da conectividade para manter fluxo de turistas, eventos, reuniões corporativas e atividades econômicas.
Alta do querosene de aviação expõe fragilidade do setor aéreo
O choque dos combustíveis também pressionou as finanças das companhias.
Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, apenas em abril o aumento do querosene gerou um custo adicional de R$ 719 milhões para o setor.
Somando abril e maio, o impacto acumulado chegou a R$ 1,84 bilhão.
Diante desse cenário, o governo federal estruturou medidas emergenciais de apoio, incluindo uma linha de crédito de até R$ 1 bilhão para capital de giro e um programa de financiamento por meio do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac).
Embora a Petrobras tenha anunciado uma redução de 14,2% no preço do combustível nesta semana, os efeitos da disparada registrada nos meses anteriores continuam presentes na operação das empresas.
A alta do querosene de aviação já deixou marcas visíveis no transporte aéreo brasileiro. Com milhares de voos fora da programação, as passagens ficaram mais caras e parte da conectividade aérea do país foi reduzida. O episódio, portanto, mostra como oscilações no mercado internacional de petróleo continuam influenciando diretamente o custo e a disponibilidade das viagens no Brasil.





