A Bolívia abandonou o câmbio fixo e iniciou a transição para um regime cambial flexível, encerrando uma política mantida por cerca de 15 anos. A decisão foi anunciada nessa sexta-feira (26/06) e resultará em uma desvalorização de aproximadamente 30% do boliviano a partir desta segunda-feira (28/06).
A mudança ocorre em meio à pior escassez de dólares enfrentada pelo país nas últimas décadas e faz parte das medidas adotadas para recuperar reservas internacionais e avançar nas negociações por um programa de financiamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI), estimado em cerca de US$ 3 bilhões.
Na prática, o governo reconhece que a antiga paridade deixou de refletir a realidade do mercado cambial. Enquanto o dólar permanecia oficialmente próximo de 6,9 bolivianos, no mercado paralelo a moeda norte-americana chegou a ser negociada perto de 20 bolivianos, evidenciando a falta de divisas na economia.
Por que a Bolívia abandonou o câmbio fixo
Durante anos, a estabilidade cambial foi sustentada pelas reservas internacionais acumuladas com as exportações de gás natural. Esse cenário mudou à medida que a produção diminuiu, as receitas externas perderam força e a entrada de dólares ficou insuficiente para atender à demanda da economia.
Sem reservas suficientes para defender a cotação oficial, o governo passou a conviver com um sistema de dois câmbios. De um lado, a taxa oficial permanecia praticamente inalterada. De outro, empresas e consumidores enfrentavam um mercado paralelo com preços muito superiores.
O novo decreto aproxima a taxa oficial das condições reais do mercado. O Banco Central da Bolívia informou que o câmbio passará para 9,73 bolivianos por dólar, substituindo a antiga referência de compra de 6,86 bolivianos.
Essa transição também atende a uma recomendação feita anteriormente pelo próprio FMI, que defendia o abandono da paridade como parte do ajuste macroeconômico necessário para restaurar a confiança dos investidores e reduzir os desequilíbrios externos.
O que muda com a desvalorização do boliviano
A medida de abandono do câmbio fixo tende a facilitar a entrada de dólares na economia, já que aproxima o câmbio oficial da Bolívia do valor praticado nas operações comerciais e financeiras.
Ao mesmo tempo, a mudança traz efeitos imediatos sobre os preços internos. Produtos importados e insumos comprados em moeda estrangeira tendem a ficar mais caros, aumentando o risco de inflação nos próximos meses.
Entre os principais impactos esperados estão:
- Encarecimento das importações;
- Pressão sobre os preços ao consumidor;
- Redução da diferença entre o câmbio oficial e o paralelo;
- Melhora da competitividade das exportações bolivianas;
- Maior possibilidade de recomposição das reservas internacionais.
Economistas, porém, destacam que a mudança cambial, sozinha, não resolve a crise de liquidez. O sucesso da estratégia dependerá da capacidade do governo de voltar a atrair dólares e recompor as reservas do Banco Central.
Acordo com o FMI ainda enfrenta resistência política
Depois que a Bolívia abandonou o câmbio fixo, o principal desafio deixou de ser definir uma nova cotação para a moeda e passou a ser recuperar a oferta de dólares. Sem reservas suficientes, o Banco Central continuará dependente da entrada de divisas para dar estabilidade ao novo regime cambial.
Esse desafio também tem um componente político. Desde maio, bloqueios de rodovias organizados por grupos trabalhistas interrompem o transporte de mercadorias, enquanto sindicatos rejeitam um acordo com o FMI por temerem medidas de ajuste fiscal. Na semana passada, o presidente Rodrigo Paz decretou estado de emergência para liberar as estradas.
A Bolívia abandonou o câmbio fixo para corrigir uma distorção do mercado cambial, mas o sucesso da medida dependerá da capacidade de reconstruir as reservas internacionais e recuperar a confiança dos investidores. Sem esses fatores, a mudança tende a aliviar apenas parte da crise econômica.





