O duelo entre Brasil e Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo coloca frente a frente duas potências esportivas, mas também chama a atenção pelo contraste entre as realidades econômicas de cada país. Enquanto o Brasil figura entre as maiores economias do planeta pelo tamanho de seu mercado, a Noruega se destaca pela riqueza gerada por habitante. Resultado de décadas de planejamento e da forma como administrou a receita obtida com petróleo e gás natural.
Os números ajudam a explicar essa diferença. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam que o país escandinavo registra um PIB per capita de cerca de US$ 105,9 mil, quase nove vezes superior ao brasileiro, estimado em US$ 12,3 mil.
Embora o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro seja muito maior em valores absolutos, a população reduzida da Noruega e seu elevado nível de produtividade elevam a renda média da população. Porém, o petróleo, sozinho, não explica esse desempenho.
Petróleo virou investimento, não apenas arrecadação
As grandes reservas de petróleo e gás natural descobertas no Mar do Norte mudaram a economia da Noruega a partir da segunda metade do século passado. Em vez de incorporar toda a arrecadação ao orçamento público, o governo adotou uma política de poupança que buscava reduzir a dependência das oscilações do mercado internacional de energia.
Parte relevante dessas receitas passou a alimentar um fundo soberano administrado pelo Norges Bank, responsável por investir recursos em empresas, títulos públicos e outros ativos financeiros espalhados pelo mundo. A estratégia criou uma fonte permanente de renda para o Estado. E, além disso, reduziu os impactos que um excesso de dinheiro poderia provocar sobre a economia doméstica.
Outra característica do modelo é a limitação para o uso desses recursos. O governo pode utilizar apenas uma parcela do rendimento anual obtido pelo fundo. Preservando, assim, o patrimônio acumulado para as próximas gerações e reduzindo o risco de expansão acelerada dos gastos públicos.
Esse mecanismo ajudou a economia da Noruega a ganhar estabilidade mesmo em períodos de forte oscilação dos preços internacionais do petróleo. Além de, inclusive, oferecer maior previsibilidade para investimentos públicos.
Crescimento passou a depender de mais setores
A receita gerada pela indústria de energia também abriu espaço para ampliar outros segmentos da economia. Ao longo das últimas décadas, a Noruega fortaleceu atividades ligadas a:
- Transporte marítimo;
- Produção de salmão;
- Metalurgia, à indústria química;
- E aos serviços de maior valor agregado para a economia da Noruega.
Reduzindo, assim, parte da dependência em relação aos combustíveis fósseis.
O avanço veio acompanhado por investimentos em infraestrutura, inovação, educação e qualificação profissional. Fatores que elevaram a produtividade da mão de obra e contribuíram para manter elevados níveis de renda. O mercado de trabalho também se caracteriza por baixa informalidade e maior coordenação entre empresas, trabalhadores e governo nas negociações salariais.
Com isso, a economia da Noruega passou a reunir diferentes fontes de geração de riqueza, tornando o crescimento menos vulnerável às oscilações de um único setor produtivo.
Desafios da economia da Noruega para as próximas décadas
Apesar dos indicadores favoráveis, a economia da Noruega já enfrenta um cenário diferente daquele que impulsionou seu crescimento nas últimas décadas. A transição energética, que tende a reduzir gradualmente a demanda por combustíveis fósseis, coloca o país diante da necessidade de ampliar ainda mais sua diversificação produtiva.
Outro desafio é o envelhecimento da população. Com menos pessoas em idade ativa e uma expectativa de vida elevada, cresce a pressão sobre os gastos públicos. Além da capacidade de manter o atual padrão de bem-estar social.
Mesmo assim, a economia da Noruega continua sendo uma das principais referências entre países exportadores de commodities. Portanto, o país mostra que a riqueza gerada pelos recursos naturais produz resultados duradouros quando é acompanhada por planejamento, regras fiscais e investimentos de longo prazo.





