Representantes de empresas brasileiras e entidades setoriais participarão, na próxima semana, de audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para tentar impedir a adoção da tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros.
Em vez de concentrar a defesa nos prejuízos às exportações nacionais, o setor privado pretende mostrar que a medida também poderá elevar os custos, reduzir os investimentos e afetar a competitividade da economia americana.
A mudança representa uma inflexão na estratégia adotada pelas empresas. O objetivo passa a ser convencer autoridades americanas de que a sobretaxa pode produzir efeitos contrários aos pretendidos, atingindo fabricantes instalados nos Estados Unidos, consumidores e cadeias produtivas que dependem de fornecedores brasileiros.
Tarifa de 25% dos EUA será contestada com foco na integração entre os dois mercados
O principal argumento apresentado ao USTR será o grau de integração entre empresas brasileiras e americanas. Em diversos setores, produtos exportados pelo Brasil abastecem fábricas instaladas nos Estados Unidos ou fazem parte de cadeias produtivas compartilhadas. O que, consequentemente, reduz a possibilidade de substituição rápida por fornecedores de outros países.
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) afirma que mais de 80% do comércio bilateral do setor ocorre entre empresas coligadas, como matrizes e subsidiárias. Segundo a entidade, a tarifa de 25% dos EUA elevaria custos para segmentos como infraestrutura e energia. Além de abrir espaço para concorrentes internacionais em mercados estratégicos.
Os números reforçam essa avaliação.
- US$ 3,2 bilhões em máquinas e equipamentos foram comercializados entre Brasil e Estados Unidos em 2025.
- Os EUA registraram superávit de US$ 1,2 bilhão nesse segmento.
- 35,2% das manufaturas brasileiras exportadas podem ser atingidas pela medida, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Para a CNI, a medida não encontra justificativa econômica, jurídica ou estratégica. A entidade sustenta que o Brasil avançou nos temas investigados pelo USTR e defenderá que uma tarifa ampla compromete uma relação comercial marcada pela complementaridade entre as economias.
Empresas destacam investimentos nos EUA para reforçar a defesa
Grandes empresas brasileiras também utilizarão sua presença industrial nos EUA para fortalecer os argumentos contra a implementação da tarifa de 25%. A estratégia busca demonstrar que a tarifa poderá atingir operações que produzem, investem e contratam trabalhadores em território americano.
A fabricante de motores elétricos WEG ressaltará que sua subsidiária nos Estados Unidos emprega cerca de 2.300 colaboradores. E, além disso, fornece equipamentos para projetos ligados à energia, infraestrutura e indústria. Entre os exemplos está o contrato para fornecimento de aproximadamente 600 motores ao empreendimento Thacker Pass, projeto de processamento de lítio em Nevada financiado pelo Departamento de Energia dos EUA.
Já a companhia alimentícia Bauducco, por sua vez, destacará a inauguração de uma nova fábrica na Flórida, resultado de um investimento de US$ 200 milhões. Quando atingir plena capacidade, a unidade deverá gerar 600 empregos e concentrar toda a produção de wafers da companhia destinada ao mercado americano.
Segundo a empresa, a aplicação da tarifa de 25% reduziria a competitividade da operação, aumentaria custos ao varejo e poderia limitar novos investimentos previstos para os EUA. Por isso, a Bauducco defenderá ao USTR que a tarifa não seja aplicada aos seus produtos durante um período de transição de três a cinco anos, enquanto a nova fábrica amplia sua capacidade de produção.
Consumidores e empresas americanas entram no centro dos argumentos
O impacto sobre os preços nos Estados Unidos também será um dos pilares da defesa apresentada pelo setor privado brasileiro. Em vez de tratar apenas dos efeitos sobre exportadores nacionais, entidades pretendem mostrar que a tarifa poderá encarecer produtos consumidos pelos próprios americanos.
O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) defenderá a manutenção da isenção para o café verde e pedirá a inclusão do café solúvel entre as exceções da investigação da Seção 301. O Cecafé desenvolveu a estratégia junto com a National Coffee Association (NCA), entidade que representa a indústria cafeeira dos Estados Unidos.
A avaliação do setor é que o mercado americano depende do fornecimento brasileiro para manter preços competitivos. Como o Brasil lidera a produção e as exportações globais de café, uma restrição às importações teria potencial para pressionar os custos da cadeia e chegar ao consumidor final.
A indústria de rochas ornamentais seguirá uma linha semelhante. A Centrorochas argumentará que aproximadamente um quarto das pedras naturais importadas pelos Estados Unidos tem origem brasileira. E, além disso, abastece empresas locais responsáveis pelo beneficiamento e pela distribuição do produto.
Tarifa de 25% dos EUA muda disputa para o custo interno americano
Ao concentrar os argumentos nos efeitos sobre a economia americana, o setor privado brasileiro tenta ampliar sua influência sobre a decisão do USTR. A estratégia, portanto, desloca o debate das perdas para exportadores brasileiros para os custos que a tarifa de 25% dos EUA pode impor à economia.
Esse é o ponto mais sensível da ofensiva. Se a cobrança encarece insumos, reduz competitividade e afeta cadeias produtivas locais, ela deixa de ser apenas uma punição comercial ao Brasil. E passa, portanto, a representar um risco econômico também para o próprio mercado americano.
Portanto, com o prazo legal para a conclusão da investigação do USTR marcado para 15/07, espera-se que os argumentos consigam barrar o tarifaço.





