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A reforma tributária nas empresas vai simplificar o sistema. Mas não significa que pagará menos impostos

No meu artigo de hoje, analiso por que a simplificação prometida pela reforma tributária não garante imposto menor. A mudança exigirá revisão de contratos, sistemas, preços e governança. Quem agir antes terá vantagem competitiva na transição fiscal.
Rubens Tavares analisa a reforma tributária nas empresas
Rubens Tavares, CEO da BMS Consultoria Tributária, analisa os impactos da reforma tributária nas empresas e alerta que simplificação não significa redução automática de impostos.

Desde que a reforma foi aprovada, percebo no mercado uma expectativa perigosa. Muitos empresários passaram a tratar a reforma tributária nas empresas como sinônimo de alívio imediato no caixa. Eu entendo essa leitura, porque o sistema brasileiro cansou quem produz, vende, contrata e investe. No entanto, simplificar a forma de apuração não significa, automaticamente, reduzir o imposto devido.

Depois de mais de três décadas atuando na área tributária, aprendi que o maior erro em momentos de mudança é confundir desejo com desenho legal. A reforma reorganiza a tributação sobre o consumo, substitui tributos conhecidos por um modelo baseado em CBS e IBS e promete mais transparência. Ainda assim, ela não elimina a necessidade de arrecadação do Estado, nem garante carga menor para todos.

Reforma tributária nas empresas exige leitura realista

A primeira premissa precisa ser clara: o Brasil está trocando a engrenagem do sistema, não abandonando a conta. A nova lógica busca reduzir cumulatividade, padronizar regras e diminuir disputas entre fiscos, empresas e contribuintes. Portanto, há ganhos relevantes de racionalidade. Porém, esses ganhos não devem ser confundidos com uma promessa geral de queda tributária.

Na prática, a reforma pode melhorar a previsibilidade. Isso importa muito para quem investe, contrata fornecedores e estrutura preços. Além disso, a tributação no destino tende a corrigir distorções antigas entre estados e municípios. Contudo, cada setor sentirá a mudança de forma diferente. Empresas de serviços, comércio, indústria, agronegócio e tecnologia não partem do mesmo ponto.

Por isso, considero arriscado esperar um efeito uniforme. Algumas companhias poderão ganhar eficiência com créditos mais amplos. Outras, entretanto, poderão enfrentar aumento de custo, mudança de margem ou necessidade de repassar preços. Assim, o impacto da reforma tributária nas empresas dependerá menos do discurso geral e mais da fotografia concreta de cada operação.

Impacto da reforma tributária nas empresas vai além da alíquota

O debate público costuma ficar preso à alíquota. Esse é um erro compreensível, mas incompleto. A alíquota importa, evidentemente. Porém, o modo de aproveitar créditos, emitir documentos fiscais, revisar contratos e administrar prazos de recebimento pode pesar tanto quanto o percentual nominal do tributo.

A nova sistemática exigirá uma leitura integrada entre área fiscal, contabilidade, jurídico, tecnologia, compras, vendas e financeiro. Portanto, a reforma não será apenas um assunto do contador. Ela entrará no preço do produto, na negociação com fornecedores, na estrutura de contratos longos, na formação de margem e no fluxo de caixa.

Esse ponto é central. Uma empresa pode não pagar menos imposto e, mesmo assim, ganhar competitividade se reduzir litígios, automatizar processos e melhorar sua gestão de créditos. Da mesma forma, pode não pagar mais imposto e, ainda assim, perder eficiência se seus sistemas não acompanharem as novas exigências.

A partir de 2026, já haverá destaque da CBS e do IBS em documentos fiscais eletrônicos, dentro do período de testes. A implementação plena, por sua vez, ocorrerá de forma progressiva até 2033. Portanto, o calendário oferece uma vantagem rara no Brasil: tempo para simular, corrigir e amadurecer decisões antes da operação integral do novo modelo.

A transição fiscal será uma prova de gestão

Na minha avaliação, a transição será mais decisiva do que o ponto final da reforma. Isso ocorre porque o período de convivência entre regras antigas e novas criará riscos, dúvidas e oportunidades. Quem tratar essa fase como espera passiva chegará atrasado. Quem tratar como laboratório poderá ajustar processos com menor custo.

As empresas precisam mapear produtos, serviços, benefícios fiscais, contratos, créditos acumulados e exposição por unidade de negócio. Além disso, devem testar sistemas, revisar cadastros, capacitar equipes e medir impactos por cenário. Esse trabalho não pode ficar para a véspera, porque a mudança atravessará a operação inteira.

Também vejo uma consequência econômica relevante. A reforma tende a aumentar a pressão por governança tributária. Empresas que antes dependiam de interpretações locais, rotinas manuais ou controles frágeis terão menos espaço para improviso. Em um sistema mais digital e padronizado, inconsistências aparecerão com mais rapidez.

Por outro lado, essa mesma padronização pode favorecer negócios mais organizados. A adaptação à reforma tributária nas empresas será, portanto, um ativo competitivo. Ela permitirá decisões melhores sobre preço, investimento, cadeia de fornecedores e expansão regional. Em setores de margem apertada, essa diferença pode separar quem cresce de quem apenas sobrevive.

Novo sistema fiscal pede adaptação antes da cobrança

Não defendo pessimismo em relação à reforma. Pelo contrário, considero positiva a tentativa de tornar o sistema mais transparente e operacionalmente menos caótico. Porém, defendo realismo. O empresário que espera apenas pagar menos pode perder a chance de se preparar melhor.

A reforma tributária nas empresas deve ser entendida como uma mudança estrutural de gestão, não como uma simples substituição de siglas. Ela alterará rotinas, contratos, sistemas, preços e indicadores. Portanto, o maior benefício não estará necessariamente na redução da carga, mas na capacidade de adaptação.

No fim, a reforma tributária nas empresas deve ser entendida não premiará quem acreditou na promessa mais confortável. Ela favorecerá quem leu o cenário com antecedência, fez contas, revisou processos e transformou a transição em vantagem. Para mim, essa é a mensagem essencial: simplificar ajuda, mas só a gestão preparada transforma simplificação em competitividade.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.

Foto de Rubens Tavares

Rubens Tavares

Rubens Tavares é articulista do Economic News Brasil, CEO da BMS Consultoria Tributária e membro ativo da EO RJ & G4 Club. Atua como consultor tributário sênior, com mais de 15 anos de experiência em gestão fiscal, planejamento e recuperação de créditos tributários e previdenciários. É CEO da BMS Leaders Table e mestre em Direito Tributário pelo Insper. Possui MBAs em Direito Trabalhista Aplicado e em Recuperação de Créditos Tributários e Previdenciários pelo BSSP Centro Educacional, além de formação executiva em Inovação e Tecnologia pela StartSe.

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