O Ministério da Fazenda deve elevar sua projeção oficial para a inflação de 2026 após concluir que o El Niño será mais intenso do que o previsto. A informação foi antecipada pela secretária de Política Econômica, Débora Freire, que afirmou, em entrevista ao Jota, que o fenômeno climático reduz a expectativa de desaceleração dos preços no segundo semestre e representa um vetor de alta para a inflação.
A nova estimativa ficará acima dos 4,5% projetados em maio, patamar que corresponde ao teto da meta de inflação do Banco Central, embora ainda deva permanecer abaixo da expectativa do mercado, de 5,33%, segundo o Boletim Focus. A Fazenda também informou que, por enquanto, mantém a previsão de crescimento de 2,3% para o PIB, mas continua revisando os números antes da divulgação oficial.
A revisão mostra que um fenômeno climático passou a influenciar diretamente as projeções macroeconômicas do governo. Mais do que aumentar o preço de alguns alimentos, um El Niño mais forte pode alterar o ritmo da inflação, influenciar a trajetória dos juros e reduzir o espaço para uma aceleração da economia.
Por que o El Niño levou a Fazenda a revisar a inflação
O El Niño é um fenômeno climático provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do mundo. Com isso, a região Sul do Brasil costuma registrar chuvas acima da média, enquanto Norte e Nordeste enfrentam períodos mais secos, afetando a produção agropecuária.
Nesse contexto, o impacto do El Niño na inflação ocorre principalmente por meio dos alimentos. As mudanças climáticas reduzem a produtividade de algumas culturas, elevam os custos no campo e pressionam a oferta. Como a alimentação tem peso relevante no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), esse choque pode desacelerar menos a inflação do que o esperado e dificultar o retorno dos preços à meta do Banco Central.
Foi esse diagnóstico que levou a Fazenda a revisar suas projeções. Segundo a secretária de Política Econômica, Débora Freire, o governo passou a ter mais convicção de que o El Niño será intenso. Com isso, a equipe econômica espera uma desaceleração menor da inflação no segundo semestre e prepara uma revisão para cima da estimativa oficial para 2026.
Como o clima pode atrasar a queda dos juros
Os efeitos do El Niño na inflação, porém, não se limitam ao aumento dos preços dos alimentos. Se a pressão sobre o IPCA persistir por mais tempo, o Banco Central terá menos espaço para reduzir a taxa Selic, prolongando um ambiente de juros elevados.
Esse movimento afeta toda a economia. Afinal, crédito mais caro dificulta o financiamento de famílias e empresas, desestimula investimentos e reduz o consumo, principalmente nos setores mais dependentes de parcelamentos.
É por isso que a revisão da Fazenda vai além de uma atualização das projeções. Ao reconhecer um El Niño mais intenso, o governo também admite um risco maior de que a inflação permaneça elevada por mais tempo, alterando as perspectivas para a política monetária e o ritmo da atividade econômica.
Juros elevados ampliam os efeitos sobre a economia
Se a inflação permanecer pressionada por mais tempo, o Banco Central terá menos espaço para reduzir a Selic. Juros elevados encarecem o crédito, desestimulam investimentos e reduzem o consumo, especialmente nos setores mais dependentes de financiamento.
A própria Fazenda manteve, por enquanto, a projeção de 2,3% para o PIB em 2026, mas reconheceu que as estimativas seguem em revisão. Débora Freire também afirmou que juros elevados nas principais economias e uma Selic maior no Brasil podem limitar o crescimento econômico em 2027.
El Niño e inflação devem continuar no centro das projeções econômicas
A revisão da projeção da Fazenda indica que fatores climáticos ganharam peso nas perspectivas para a economia brasileira. O El Niño deixou de representar apenas um risco para o agronegócio e passou a influenciar as estimativas para inflação, juros e atividade econômica.
Se o fenômeno mantiver a pressão sobre os preços, o desafio do governo e do Banco Central será conter a inflação sem provocar uma desaceleração mais intensa da economia. É esse equilíbrio que deve orientar as próximas revisões das projeções oficiais.





