O déficit em conta corrente abriu o ano acima do que o mercado projetava e impôs um teste imediato ao setor externo. Em janeiro, o rombo somou US$ 8,360 bilhões, valor que ultrapassou até o teto das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast.
A mediana das projeções apontava saldo negativo de US$ 6,60 bilhões. O resultado oficial, divulgado pelo Banco Central (BC), ficou fora do intervalo esperado. Ainda assim, o dado não repete o patamar de janeiro do ano passado. A diferença, contudo, esconde um detalhe estrutural relevante.
Renda primária amplia pressão sobre as contas externas
A composição do saldo mostra onde a fragilidade persiste. A balança comercial registrou superávit de US$ 3,516 bilhões, sustentada por exportações líquidas. Porém, a conta de serviços teve déficit de US$ 3,972 bilhões.
O maior peso veio da renda primária, negativa em US$ 8,312 bilhões, reflexo de remessas de lucros e dividendos e pagamento de juros ao exterior. Esse fluxo costuma pressionar as transações correntes, sobretudo no início do ano. Para além do dado mensal, o acumulado revela outro ângulo.
Indicador em relação ao PIB mostra alívio gradual
No acumulado em 12 meses, o saldo negativo recuou de 3,03% para 2,92% do Produto Interno Bruto (PIB). Trata-se do menor percentual desde novembro de 2024. O indicador relativo ao PIB funciona como termômetro da sustentabilidade externa.
Mesmo com a surpresa em janeiro, a trajetória anual indica acomodação gradual. A conta financeira, que ficou negativa em US$ 8,227 bilhões, também influencia essa leitura, pois reflete o comportamento dos fluxos de capital e investimentos. A questão é se o padrão se manterá ao longo do ano.
Projeção oficial aponta acomodação do déficit externo
O BC projeta déficit de US$ 60 bilhões nas transações correntes em 2026, equivalente a 2,4% do PIB. A estimativa considera superávit comercial de US$ 64 bilhões, além de déficits de US$ 51 bilhões em serviços e US$ 78 bilhões em renda primária.
O cenário pressupõe estabilidade nas exportações brasileiras e controle das despesas externas recorrentes. Caso a renda primária continue pressionada, o ajuste dependerá ainda mais do comércio exterior.
O déficit em conta corrente, portanto, começa o ano acima do esperado, mas ainda inserido em uma trajetória anual de moderação. A dinâmica entre superávit comercial e saída líquida de rendas definirá o equilíbrio externo. Em um ambiente global de juros elevados e volatilidade cambial, o setor externo brasileiro volta a ser variável central para a estabilidade macroeconômica.





