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Dívida bilionária leva à recuperação judicial do Grupo Trebeschi e expõe crise no agro

A recuperação judicial do Grupo Trebeschi expõe a pressão sobre grandes produtores, afetados por clima, custos elevados e juros altos, em um cenário que pode impactar crédito e a cadeia do agronegócio no Brasil.
Imagem antiga da fachada da Trebeschi Tomates para ilustrar uma matéria jornalística sobre a Recuperação judicial do Grupo Trebeschi.
Trebeschi entra em recuperação e expõe crise no agro. (Imagem: Facebook/Trebeschi Tomates)

A recuperação judicial do Grupo Trebeschi, protocolada na última quarta-feira (08/04), com R$ 637,1 milhões em dívidas incluídas e um passivo total de R$ 1,27 bilhão, evidencia uma mudança relevante no setor: a crise no agronegócio brasileiro começa a atingir grandes produtores, pressionados por custos elevados, clima adverso e crédito mais caro.

O grupo, que emprega cerca de 3 mil pessoas e atua em 17,7 mil hectares, pediu à Justiça a suspensão das cobranças por 180 dias. A medida busca garantir fôlego financeiro, mas também sinaliza que mesmo operações estruturadas estão sob pressão.

O que a recuperação judicial do Grupo Trebeschi revela

O pedido não representa apenas uma dificuldade pontual. Ele concentra fatores que vêm afetando o agronegócio brasileiro nos últimos anos. Eventos climáticos extremos, como geadas e secas, reduziram a produtividade. Ao mesmo tempo, pragas agrícolas elevaram perdas e exigiram mais investimentos em controle, aumentando o custo por hectare.

Além disso, os insumos ficaram mais caros. Fertilizantes, impactados pelo cenário internacional e pelo dólar valorizado, pressionaram o caixa dos produtores. Com isso, a margem operacional diminuiu mesmo em propriedades de grande escala.

Endividamento alto e impacto no crédito rural

A estrutura da dívida do grupo ajuda a entender o risco. Dos R$ 637,1 milhões incluídos na recuperação judicial, R$ 452,6 milhões são de credores quirografários — sem garantia real — o que amplia a exposição de fornecedores da Grupo Trebeschi.

Entre os credores estão instituições financeiras relevantes, como Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco e Rabobank, além de cooperativas como Sicoob.

Fora do processo, o grupo ainda mantém dívidas expressivas com bancos como Santander e Safra, o que amplia a pressão financeira total.

Esse cenário tende a ter efeito direto no crédito rural. Com casos como esse, instituições financeiras podem adotar critérios mais rígidos, encarecendo ou limitando financiamentos para outros produtores.

Produção mantida, mas sob pressão financeira

Mesmo com a recuperação judicial do Grupo Trebeschi, a operação segue ativa. A empresa afirma que não há risco de desabastecimento e mantém produção diversificada, com hortaliças, grãos e café.

A continuidade da produção é viabilizada justamente pelo mecanismo da recuperação judicial, que permite renegociar dívidas enquanto a atividade segue funcionando. No entanto, essa estabilidade depende da capacidade de reorganização financeira. Sem isso, o impacto pode se espalhar para fornecedores, logística e distribuição.

Expansão e vulnerabilidade no agronegócio

A trajetória do grupo mostra um padrão comum no setor. Com mais de 50 anos de atuação, a empresa expandiu produção para diferentes estados e diversificou culturas. 

Esse modelo, baseado em escala e diversificação, costuma reduzir riscos operacionais. Porém, também aumenta a dependência de crédito e eleva a exposição a oscilações externas.

No caso da Trebeschi, a combinação de clima, custos e juros superou a capacidade de absorção do negócio, resultando no acúmulo de dívidas.

Crise no agronegócio brasileiro ganha novo patamar

A recuperação judicial do Grupo Trebeschi indica que a crise no agronegócio brasileiro não está restrita a pequenos produtores. Grandes operações, com estrutura consolidada e acesso a crédito, também começam a enfrentar dificuldades. Isso sugere um problema mais amplo, ligado ao ambiente econômico e produtivo.

Na prática, o setor pode passar por ajustes. Empresas tendem a rever expansão, reduzir alavancagem e buscar maior eficiência. Para o mercado, o efeito pode incluir crédito mais restrito e mudanças na dinâmica da cadeia produtiva.

Foto de Marconi Bernardino

Marconi Bernardino

Marconi Bernardino é jornalista formado pela Unifavip Wyden, em Caruaru (PE). Integra a equipe do Economic News Brasil, com atuação na produção de conteúdos analíticos sobre negócios, mercado financeiro e fortunas, além de experiência em jornalismo para televisão e rádio.

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