A relação entre dívida pública e Selic entrou em uma faixa considerada crítica por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV). O estudo da edição de março da Revista Brasileira de Economia, publicada pela FGV, aponta que o Banco Central precisa elevar os juros com mais intensidade quando a dívida bruta supera 71,5% do PIB.
O Brasil está acima desse patamar. A dívida pública atingiu 80,1% do PIB em março, enquanto a Selic permanece em 14,5% ao ano. O efeito aparece no crédito, no custo das empresas e na dificuldade de reduzir despesas financeiras do governo.
Juros elevados por mais tempo também ampliam o custo de rolagem da dívida pública e pressionam o espaço fiscal do país.
Dívida alta reduz potência da política monetária
A pesquisa publicada pela Revista Brasileira de Economia, da FGV, identificou um ponto em que o aumento da dívida pública começa a alterar a Selic e a eficiência da política monetária no Brasil. Segundo o economista Benito Salomão, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), esse efeito aparece quando a dívida bruta supera 71,5% do PIB.
A partir desse nível, o Banco Central precisa elevar a Selic com mais intensidade para produzir o mesmo efeito sobre a inflação. O estudo chama esse processo de “dominância monetária fraca”, conceito usado para descrever momentos em que a deterioração fiscal não elimina a capacidade de ação do BC, mas reduz sua potência.
O problema surge porque o avanço da dívida pública muda a percepção de risco da economia, eventualmente alterando a selic. Empresas começam a reajustar preços com mais rapidez, investidores exigem retorno maior para financiar o governo e trabalhadores tentam antecipar perdas inflacionárias nos salários. A inflação passa a reagir menos aos juros, o que obriga o Banco Central a sustentar uma política monetária mais dura por mais tempo.
O estudo sugere que parte da resistência da inflação brasileira não está ligada apenas ao consumo ou à atividade econômica, mas também à desconfiança sobre a trajetória futura das contas públicas. Isso ajuda a explicar por que o país mantém juros reais elevados mesmo após desaceleração parcial da inflação.
Mercado exige prêmio maior para financiar dívida pública e Selic
O estudo também identificou efeito direto da deterioração fiscal sobre os juros de longo prazo pagos pelo Tesouro Nacional. A análise utilizou 12 modelos econométricos com dados mensais da economia brasileira entre janeiro de 2003 e outubro de 2022.
Segundo a pesquisa, o avanço da dívida pública e Selic altera rapidamente a percepção de risco dos investidores. Quando o mercado passa a enxergar dificuldade maior de estabilização fiscal, cresce a exigência de retorno para financiar o governo.
Esse encarecimento aparece principalmente nos títulos prefixados. O Tesouro precisa pagar taxas maiores para continuar rolando a dívida, o que amplia despesas financeiras e reduz espaço para investimento público e ajuste fiscal.
O pesquisador afirma que esse mecanismo ajuda a explicar por que a melhora recente do déficit primário não reduziu o custo da dívida brasileira. Em 2023, o déficit ficou em 2,4% do PIB, mas o país continuou financiando sua dívida em taxas elevadas.
A conclusão do estudo é que o mercado passou a reagir menos ao resultado fiscal imediato e mais à trajetória futura do endividamento público. Isso mantém pressão sobre dívida pública e Selic mesmo em períodos de desaceleração parcial da inflação.
Crises fiscais ampliaram pressão sobre dívida pública e Selic no Brasil
O estudo identifica momentos em que a economia brasileira passou a operar sob um ambiente de “dominância monetária fraca”, em que o avanço da dívida pública reduz a eficiência da política monetária e aumenta a pressão sobre taxa selic. Segundo a pesquisa, esse comportamento apareceu em períodos de deterioração fiscal ou aumento da percepção de risco sobre as contas públicas.
Entre os episódios citados estão:
- transição entre Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2002 e 2003;
- crise financeira global de 2008;
- recessão durante o governo Dilma Rousseff;
- período pós-pandemia em 2022.
O pesquisador afirma que o episódio mais recente ganhou intensidade após medidas de expansão fiscal adotadas durante o governo Jair Bolsonaro. Entre elas:
- PEC dos Precatórios;
- PEC Kamikaze;
- ampliação de estímulos fiscais;
- avanço da relação dívida/PIB.
Segundo o estudo, aquele movimento elevou a percepção de risco sobre as contas públicas e fez investidores exigirem retorno maior para financiar a dívida brasileira.
Dívida pública passou a limitar espaço para queda dos juros
A pesquisa aponta que parte desse efeito ainda permanece na economia brasileira. Mesmo após desaceleração parcial da inflação, o país continua operando com juros reais acima de 9%, um dos maiores níveis do mundo.
O estudo sugere que o mercado passou a reagir menos ao resultado fiscal imediato e mais à trajetória futura da dívida pública. Isso mantém pressão sobre juros longos, encarece crédito, amplia despesas financeiras do governo e reduz espaço para alívio monetário.
A conclusão do pesquisador é que o controle da inflação no Brasil deixou de depender apenas das decisões do Banco Central. Segundo a análise, enquanto a dívida pública continuar elevando a percepção de risco fiscal, a Selic tende a permanecer pressionada por mais tempo.



