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Duplicata escritural muda o crédito para empresas e pode repetir efeito do Pix nos pagamentos

O Banco Central inicia a duplicata escritural, sistema que digitaliza recebíveis e promete ampliar o crédito das empresas. Entenda o que muda na prática.
Fachada do Banco Central do Brasil, instituição que lançou o ecossistema da duplicata escritural para modernizar o crédito empresarial.
Banco Central inicia a implantação da duplicata escritural, sistema que promete ampliar o acesso ao crédito e reduzir fraudes no mercado de recebíveis. (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O Banco Central (BC) lançou nesta terça-feira (30/06) o ecossistema da duplicata escritural, iniciando uma transformação na infraestrutura do crédito corporativo brasileiro. A produção assistida começa em julho e inaugura um modelo que pode tornar mais simples, seguro e competitivo o financiamento das empresas.

A expectativa do setor financeiro é destravar um mercado superior a R$ 11 trilhões em recebíveis, ampliando o uso desses ativos como garantia para operações de crédito. Hoje, apenas 10% a 15% das duplicatas emitidas chegam ao mercado financeiro, apesar do enorme volume negociado todos os anos.

A comparação com o Pix tornou-se recorrente porque ambos substituem processos fragmentados por uma infraestrutura digital padronizada. A diferença é que, enquanto o Pix revolucionou os pagamentos, a duplicata escritural busca transformar a forma como empresas financiam capital de giro, antecipam recebíveis e acessam crédito.

Antes mesmo da obrigatoriedade, prevista para começar em 2027 de forma escalonada, o mercado inicia uma fase decisiva de testes para validar uma das maiores mudanças já realizadas no sistema brasileiro de crédito mercantil.

Duplicata escritural transforma um documento comercial em ativo financeiro

A duplicata escritural elimina a dependência do documento em papel e cria um registro eletrônico único para cada título. Emissão, aceite, cessão, antecipação e liquidação passam a ficar registrados em entidades autorizadas pelo Banco Central, formando um histórico rastreável durante todo o ciclo da operação.

Essa mudança reduz uma das principais fragilidades do mercado de recebíveis: a possibilidade de utilizar a mesma duplicata como garantia em operações diferentes ou negociar títulos com informações incompletas.

Na prática, isso altera a percepção de risco dos financiadores. Bancos, fintechs, Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e investidores passam a trabalhar com informações padronizadas e verificáveis, reduzindo incertezas que historicamente elevaram o custo do crédito.

Crédito pode ficar mais competitivo com novos financiadores

O principal efeito esperado não é apenas tecnológico, mas econômico.

Quanto menor o risco da garantia, menor tende a ser o custo para financiar empresas. Com a duplicata escritural, essa lógica ganha força porque o registro único e a rastreabilidade dos recebíveis reduzem as incertezas das operações. Por isso, 88% das instituições financeiras consultadas pela Núclea acreditam que o novo modelo ampliará a oferta de crédito, enquanto 41% esperam redução no custo das operações.

A expectativa também decorre do aumento da concorrência. Com recebíveis mais confiáveis, cresce o interesse de agentes que antes evitavam esse mercado devido às incertezas sobre autenticidade, titularidade e liquidação dos títulos.

Os principais efeitos esperados incluem:

  • Ampliação da oferta de crédito empresarial;
  • Redução de fraudes com duplicatas;
  • Maior competição entre bancos, fintechs e FIDCs;
  • Queda potencial do custo do capital de giro;
  • Maior liquidez para recebíveis comerciais.

Na avaliação da Evertec Brasil, empresas que utilizam frequentemente antecipação de recebíveis poderão reduzir o custo do capital de giro entre 0,3 e 0,8 ponto percentual ao mês, caso o aumento da concorrência proporcionado pela duplicata escritural se confirme.

Pequenas empresas podem ser as maiores beneficiadas da mudança

Embora grandes companhias liderem a implantação obrigatória, o impacto econômico tende a ser mais significativo para pequenas e médias empresas.

Hoje, muitos negócios possuem vendas a prazo, mas não conseguem transformar esses recebíveis em garantia suficiente para acessar crédito com taxas competitivas. A duplicata escritural busca justamente reduzir essa limitação ao criar um ativo padronizado e aceito por diferentes financiadores.

Dados da Núclea mostram que empresas com faturamento de até R$ 200 mil ampliaram em 49% a quantidade de operações com duplicatas entre 2024 e 2025, enquanto o valor financeiro movimentado cresceu 125%, indicando maior utilização desse instrumento mesmo antes da obrigatoriedade.

Isso pode alterar a própria dinâmica do mercado de crédito corporativo. Em vez de depender quase exclusivamente do relacionamento bancário tradicional, empresas poderão negociar seus recebíveis com um número maior de instituições, aumentando o poder de barganha na busca por capital de giro.

Duplicata escritural ainda enfrenta desafios para reduzir o custo do crédito

O lançamento do ecossistema não significa que os benefícios aparecerão imediatamente.

A fase de produção assistida servirá para testar a interoperabilidade entre escrituradoras, registradoras, instituições financeiras e sistemas de gestão das empresas. Sendo assim, a implantação da duplicata escritural ocorrerá gradualmente porque essa integração exige elevado nível de coordenação tecnológica.

Outro desafio será converter o ganho operacional em redução efetiva dos spreads. A nova infraestrutura diminui riscos e amplia a concorrência, mas fatores como juros básicos, inadimplência e cenário macroeconômico continuam influenciando o preço final do crédito.

Ainda assim, o projeto inaugura uma mudança estrutural semelhante à promovida pelo Pix em outro segmento do sistema financeiro. Se conseguir ampliar a confiança nos recebíveis e atrair novos financiadores, a duplicata escritural poderá remodelar a forma como empresas brasileiras acessam recursos para crescer, investir e financiar suas operações.

Foto de Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto

Moisés Freire Neto é jornalista formado pela Faculdade Estácio e pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), com atuação em economia e negócios. Integra as equipes editoriais do Economic News Brasil e do J1, veículos que compõem o Sistema BNTI de Comunicação. Sua atuação é fundamentada em sólida experiência em jornalismo editorial e comunicação institucional.

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