A balança comercial brasileira entra no segundo semestre de 2026 apoiada nos seus três principais parceiros comerciais, mas os dados do primeiro semestre indicam que o cenário externo ficou mais complexo. China, União Europeia (UE) e Estados Unidos (EUA) continuam concentrando boa parte das exportações brasileiras, porém cada relação passou a exigir uma estratégia diferente do país: reduzir a dependência de um único mercado, atender regras cada vez mais rigorosas ou enfrentar o risco de novas barreiras comerciais.
Mais do que os resultados da balança, os números revelam uma mudança no ambiente internacional. Se antes o principal desafio era ampliar mercados, agora a geopolítica, as exigências regulatórias e o protecionismo passaram a influenciar diretamente o desempenho das exportações brasileiras.
China amplia compras, mas reforça a dependência
A China segue como o principal motor do comércio exterior brasileiro. Em junho, as exportações para o país cresceram 24,4%, somando US$ 12,29 bilhões, enquanto as importações avançaram 27,1%, para US$ 7,8 bilhões. O resultado foi um superávit de US$ 4,49 bilhões e uma corrente de comércio de US$ 20,09 bilhões.
Entre janeiro e junho, as vendas brasileiras ao mercado chinês alcançaram US$ 58,32 bilhões, alta de 21,9%, com superávit de US$ 19,78 bilhões e corrente comercial de US$ 96,87 bilhões.
O desempenho confirma a posição da China como principal destino das exportações brasileiras, especialmente do agronegócio. Ao mesmo tempo, evidencia uma concentração crescente das vendas externas em um único mercado. Um dos pontos de atenção é a cota chinesa para importação de carne bovina, cuja eventual saturação ao longo do ano pode limitar os embarques de um dos produtos mais relevantes da pauta exportadora.
Em outras palavras, o maior parceiro comercial do Brasil continua ampliando as compras, mas também concentra um risco importante para setores que dependem desse mercado.
União Europeia compra mais, mas eleva o custo de acesso
A relação com a União Europeia apresenta um desafio diferente. O comércio cresce, mas o acesso ao mercado depende cada vez mais do cumprimento de exigências regulatórias.
Em junho, as exportações brasileiras ao bloco aumentaram 43%, alcançando US$ 4,89 bilhões, enquanto as importações cresceram 13,9%, para US$ 4,71 bilhões, gerando superávit de US$ 180 milhões.
No acumulado do semestre, as vendas brasileiras chegaram a US$ 26,91 bilhões, avanço de 12,8%, com saldo positivo de US$ 2,64 bilhões.
O desempenho ocorre paralelamente ao fortalecimento de regras relacionadas à rastreabilidade, critérios ambientais e requisitos sanitários para produtos agropecuários. Além das discussões envolvendo o Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), exportadores acompanham novas exigências sobre o uso de antimicrobianos e outros padrões de conformidade.
Nesse ambiente, a competitividade em preço continua importante, mas deixou de ser suficiente para garantir acesso ao mercado europeu. Para cadeias como carnes, café e suco de laranja, a capacidade de atender às exigências regulatórias tornou-se parte da estratégia comercial.
Balança comercial brasileira: os Estados Unidos registraram perda de dinamismo
Os Estados Unidos aparecem como o parceiro que mais perdeu ritmo entre os três principais mercados do Brasil. Em junho, as exportações brasileiras cresceram 3,7%, para US$ 3,47 bilhões, enquanto as importações recuaram 12,3%, praticamente equilibrando a balança no mês.
No acumulado de janeiro a junho, porém, o cenário é menos favorável. As exportações caíram 13%, para US$ 17,43 bilhões, enquanto as importações recuaram 12,5%, para US$ 18,95 bilhões. O Brasil encerrou o semestre com déficit de US$ 1,52 bilhão, e a corrente de comércio somou US$ 36,38 bilhões, queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A desaceleração ocorre em meio às discussões sobre a possibilidade de novas tarifas sobre produtos brasileiros, o que adiciona um componente de incerteza à relação bilateral e amplia o risco para setores exportadores caso medidas protecionistas avancem.
O retrato do semestre mostra que o Brasil continua fortemente ancorado em seus três maiores parceiros comerciais, mas cada um passou a representar um desafio distinto para o comércio exterior. Na China, o principal risco é a concentração das exportações. Na União Europeia, o acesso depende cada vez mais do atendimento a regras regulatórias. Nos Estados Unidos, a preocupação está no enfraquecimento da corrente de comércio e na possibilidade de novas barreiras tarifárias.
Para o agronegócio brasileiro e para outros setores exportadores, a competitividade continuará sendo decisiva, mas os resultados da balança comercial indicam que compreender o ambiente geopolítico e regulatório dos principais mercados tornou-se tão importante quanto ampliar as vendas externas.





