A dívida pública brasileira voltou ao maior nível em cinco anos após o Banco Central informar que ela alcançou 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em maio, equivalente a R$ 10,62 trilhões. No mesmo mês, o setor público registrou déficit primário de R$ 56,1 bilhões, pior resultado do que o observado um ano antes.
A alta foi impulsionada por uma combinação de déficit nas contas públicas, pagamento antecipado de precatórios e elevado custo dos juros da dívida, fatores que aumentaram a necessidade de financiamento do governo e ampliaram o estoque da dívida.
O resultado vai além de um indicador fiscal. O comportamento da dívida influencia a confiança de investidores, o custo do crédito, a capacidade de investimento do governo e as perspectivas para a economia nos próximos anos.
O aumento da dívida também reforça o desafio de estabilizar as contas públicas, tema que passou a ocupar o centro das atenções do mercado financeiro, das agências de classificação de risco e dos organismos internacionais.
Por que a dívida pública brasileira voltou a crescer
A dívida pública brasileira aumenta quando o governo precisa emitir mais títulos para financiar despesas ou quando o custo para remunerar essa dívida cresce mais rapidamente do que a arrecadação.
Em maio, diferentes fatores atuaram simultaneamente sobre as contas públicas:
- Déficit primário de R$ 56,1 bilhões;
- Antecipação do pagamento de precatórios pela Secretaria do Tesouro Nacional;
- Juros elevados sobre a dívida pública;
- Estoque da dívida ampliado para R$ 10,62 trilhões.
Nos cinco primeiros meses do ano, o setor público acumulou déficit primário de R$ 24,9 bilhões, equivalente a 0,45% do PIB. No mesmo período de 2025, havia sido registrado superávit de R$ 69,1 bilhões, evidenciando uma deterioração das contas públicas.
Embora parte dessa piora esteja relacionada ao calendário de pagamento dos precatórios, economistas acompanham principalmente a tendência estrutural das despesas e das receitas. Se os gastos continuarem crescendo acima da capacidade de arrecadação, a dívida tende a permanecer em trajetória de alta.
Juros elevados ampliam o custo da dívida e pressionam a economia
Outro fator decisivo é o peso dos juros. As despesas com juros nominais somaram R$ 1,1 trilhão em doze meses, o equivalente a 8,5% do PIB, segundo o Banco Central.
Quando esses juros são incorporados às contas públicas, o chamado resultado nominal registrou déficit de R$ 1,26 trilhão, ou 9,62% do PIB em doze meses até maio.
Esse indicador é observado de perto por investidores porque revela quanto o governo precisa financiar para manter suas obrigações. Quanto maior essa necessidade, maior tende a ser a remuneração exigida para comprar títulos públicos.
Esse movimento pode gerar uma sequência de efeitos sobre a economia:
- elevação do custo de financiamento do governo;
- pressão sobre as taxas de juros de mercado;
- crédito mais caro para empresas e consumidores;
- redução do espaço para investimentos públicos.
Com a taxa Selic em patamar elevado, o custo de carregar uma dívida superior a R$ 10 trilhões aumenta rapidamente, dificultando o processo de estabilização das contas públicas.
O que o avanço da dívida significa para o arcabouço fiscal
O governo trabalha com uma meta de déficit primário de 0,25% do PIB neste ano, dentro das regras do arcabouço fiscal, aprovado em 2023 para substituir o teto de gastos.
O modelo limita o crescimento real das despesas e busca impedir que a dívida pública do Brasil continue avançando de forma acelerada ao longo dos próximos anos.
Mesmo com essas regras, o desafio permanece elevado. O aumento das despesas obrigatórias, somado ao custo dos juros, exige crescimento consistente da arrecadação ou medidas adicionais de controle dos gastos para conter o endividamento.
Outro ponto acompanhado pelo mercado é a diferença entre os conceitos de dívida. Pelo cálculo brasileiro, o indicador atingiu 81,1% do PIB. Já pelo critério utilizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que inclui títulos públicos na carteira do Banco Central, o percentual chegou a 94,3% do PIB, acima da média das economias emergentes e também superior à média dos países da Zona do Euro.
Analistas consultados pelo mercado financeiro projetam que a dívida do Brasil poderá alcançar 100% do PIB em 2035, pelo conceito brasileiro. No critério do FMI, esse percentual pode superar 110% do PIB.
Mais do que o déficit registrado em maio, os números divulgados pelo Banco Central reforçam que o principal desafio da política fiscal passou a ser conter o avanço da dívida no médio e longo prazo. A capacidade de estabilizar essa trajetória será determinante para reduzir a percepção de risco do país, aliviar a pressão sobre os juros e criar um ambiente mais favorável ao crescimento sustentável da economia.





