A inadimplência em janeiro chegou a 5,5% nas operações com recursos livres, maior taxa desde 2017, em um cenário de Selic a 15% e juros bancários próximos de 48% ao ano. O dado do Banco Central expõe uma deterioração no pagamento de dívidas por consumidores e empresas justamente quando o sistema financeiro reduz a oferta de empréstimos.
Em 12 meses, o índice avançou 1,1 ponto percentual. Ao mesmo tempo, as concessões de crédito caíram 18,9% frente a dezembro e o estoque de crédito recuou para R$ 7,116 trilhões. Ou seja, há menos dinheiro novo circulando, enquanto cresce o volume de contratos em atraso. A tensão, contudo, não está apenas no calote.
Crédito mais caro amplia pressão sobre famílias e empresas
Os juros do crédito livre atingiram 47,8% ao ano em janeiro, alta mensal de 1,2 ponto. Já o spread bancário, diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada do cliente, subiu para 34,3 pontos percentuais. Na prática, o custo financeiro permanece elevado mesmo após a interrupção do ciclo de aperto monetário em julho.
No crédito direcionado, as taxas ficaram em 11,6% ao ano, com avanço marginal. Ainda assim, as concessões nessa modalidade despencaram 32,9% no mês. Para além do encarecimento, o freio nas novas operações indica maior seletividade das instituições financeiras.
BC aponta mudança regulatória, mas admite sinais mistos
No último Relatório de Política Monetária, o Banco Central atribuiu a alta da inadimplência principalmente a alterações nas regras do sistema, mencionando “alguns sinais de estabilização”. A autoridade monetária também indicou que pode iniciar cortes na taxa básica no próximo mês, caso o arrefecimento da economia se consolide.
Entretanto, a fotografia atual mostra um ambiente de endividamento, atraso no pagamento e redução do fluxo de empréstimos. O crédito mais caro pressiona o custo financeiro das famílias e comprime o caixa das empresas.
Selic elevada e retração do crédito formam combinação delicada
Com a taxa básica de juros no maior nível em quase duas décadas, a transmissão para o mercado bancário permanece intensa. A retração simultânea das concessões e a alta da inadimplência revelam um ajuste defensivo das instituições diante do risco maior de perdas.
A inadimplência em janeiro, nesse contexto, funciona como termômetro do limite financeiro de consumidores e companhias. Se o ciclo de corte da Selic ganhar tração, o alívio poderá vir pelo custo das novas operações. Porém, a normalização tende a ser gradual, pois spreads elevados e critérios mais rígidos de concessão não se dissipam de imediato. O sistema financeiro entra em 2026 com menos apetite a risco e esse sinal pesa diretamente sobre a atividade econômica.





