As ações do Nubank voltaram ao centro das atenções em Wall Street após o Citi reduzir sua recomendação de compra para neutra e cortar o preço-alvo do papel de US$ 18 para US$ 13. A decisão reforça uma mudança de percepção que já havia aparecido semanas antes, quando o Bank of America também adotou uma postura mais cautelosa sobre a fintech.
O movimento não reflete uma desaceleração operacional. Pelo contrário. O banco digital continua expandindo sua carteira de crédito e aumentando receitas. O ponto levantado pelos analistas é outro: o crescimento pode estar elevando os riscos da operação em um ritmo maior do que o esperado.
Ações do Nubank passam a refletir preocupação com a qualidade do crescimento
O Citi avalia que o Nubank enfrenta um desafio complexo: continuar crescendo sem comprometer rentabilidade e qualidade da carteira. Segundo os analistas, a operação mantém forte dependência de linhas de crédito consideradas mais arriscadas, como cartões de crédito e empréstimos pessoais.
Cerca de 96% da carteira de crédito da fintech está concentrada em operações sem garantia, justamente o segmento que tende a sofrer mais em períodos de deterioração da capacidade de pagamento dos clientes.
O banco também destaca que o crédito já responde por aproximadamente 60% da receita média gerada por cliente, aumentando a importância dessa atividade para os resultados futuros.
Essa combinação cria uma relação cada vez mais estreita entre expansão da carteira e evolução dos indicadores de risco. Quanto maior o crescimento, maior passa a ser a atenção do mercado sobre a qualidade desse avanço.
Ações do Nubank ficam mais expostas ao avanço do consignado privado
O avanço do consignado privado entrou no relatório do Citi porque pode mudar a ordem de pagamento dentro do orçamento dos clientes. Como as parcelas dessa modalidade são descontadas diretamente da folha, elas tendem a reduzir a renda disponível para dívidas sem garantia, como cartão de crédito e empréstimos pessoais.
Esse ponto pesa sobre as ações do Nubank porque a fintech mantém exposição relevante justamente nessas linhas. Para o Citi, o risco é que a expansão do consignado privado desloque parte da capacidade de pagamento dos tomadores. E, além disso, transfira mais estresse para produtos nos quais o banco digital tem maior dependência.
A preocupação não parte apenas de uma hipótese. O Citi cita o período entre 2021 e 2023, quando cartões, empréstimos pessoais e outras linhas sem garantia absorveram a maior parte da deterioração dos pagamentos, enquanto modalidades com garantia permaneceram mais resilientes.
Citi cortou projeções de lucro e retorno para os próximos anos
O rebaixamento da recomendação veio acompanhado de uma revisão relevante nas estimativas financeiras para o Nubank. Ao reduzir suas projeções de lucro para 2026 e 2027, o Citi reforçou a avaliação de que as ações do Nubank podem enfrentar um cenário mais desafiador do que o previsto anteriormente. Principalmente diante dos riscos associados à expansão da carteira de crédito.
Entre os principais ajustes anunciados pelo banco estão:
- redução de 9% na estimativa de lucro para 2026;
- corte de 15% na projeção para 2027;
- revisão do ROE de longo prazo de 30% para 25%;
- expectativa de crescimento mais desafiadora para a operação.
Além do cenário doméstico, os analistas também apontam maior incerteza em relação à expansão internacional da fintech. Na avaliação do Citi, esse conjunto de fatores reduz parte do potencial de geração de valor que sustentava projeções mais otimistas para as ações do Nubank nos últimos anos.
O mercado passou a olhar além do crescimento acelerado
Mesmo após reduzir o preço-alvo, o Citi deixou claro que sua principal preocupação não está no ritmo atual de expansão do Nubank. Mas sim na capacidade de manter esse crescimento sem deteriorar indicadores de risco e rentabilidade.
A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre ganhar escala e passou a incluir a qualidade dos resultados produzidos por essa estratégia.
Essa mudança ajuda a explicar por que duas instituições de Wall Street revisaram suas avaliações sobre a fintech em poucas semanas. Mais do que medir quantos clientes ou empréstimos o Nubank consegue adicionar, o mercado passou a observar quanto risco acompanha essa trajetória. E, inclusive, quais impactos ela pode ter sobre lucro, retorno ao acionista e potencial de valorização das ações.




